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Brasil Adiante para onde?

  • Clipping Vitae
  • 5 de jun.
  • 3 min de leitura

Virou uma das frases mais famosas da literatura latino-americana aquela com a qual o escritor peruano Mario Vargas Llosa (que foi colunista do Estadão) iniciou um de seus livros mais importantes, o Conversación en La Catedral. “En qué momento se había jodido el Peru?”, indaga o personagem central do romance, expressando profunda decepção com a decadência institucional.


É só colocar “Brasil” no lugar de “Peru” e estamos diante da mesma indagação. É difícil precisar uma data, mas é fácil identificar um sintoma de decadência institucional: é a insistência com que sobretudo os representantes de instituições reiteram que “elas estão funcionando”. Se consideradas aquelas fundamentais para o funcionamento do sistema político – os três Poderes e os partidos –, é óbvio que não estão.

Em boa medida foi esse o pano de fundo de algumas das discussões mais relevantes do projeto Brasil Adiante, promovido pelo Estadão. O primeiro encontro ligou estabilidade institucional a crescimento (na verdade, falta de). Pois o problema não era diagnóstico ou o que se deveria fazer para restaurar confiança em aspectos como política fiscal ou funcionamento do Judiciário. A questão é: por que não se faz?

É quase uma definição de dicionário quando se diz que toda sociedade aberta busca através de seu sistema político as respostas para desafios que tem de resolver. No caso brasileiro, é evidente que esse sistema não exibe mais condições de “entregar” as respostas. Embora seja mesmo ingênuo esperar que surgisse da mediocridade de seus principais integrantes e dirigentes qualquer coisa remotamente adequada ao desafio demográfico, da produtividade estagnada, da gritante desigualdade social.

É também quase uma definição de dicionário quando se diz que instituições existem em parte em função de “agendas” em seu sentido mais amplo. Nesse ponto, a indagação acima seria quando foi que se perderam as agendas no Brasil. Há mais de uma geração, pelo menos – especialmente por incapacidade de elites em várias esferas, incluindo o setor privado. Um tipo de fenômeno que hoje se retroalimenta. É o que era definido como “o fim da política”.

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É o esvaziamento do debate ideológico nacional substituindo a verdadeira política por uma gestão burocrática e mera acomodação de interesses. Substituição de um projeto nacional pelo gerencialismo (nas palavras de Oliveiros Ferreira), numa lógica apenas administrativa. O que se vê, como consequência, é o acentuado declínio da autoridade do Estado, fragmentado diante de pressões corporativistas e patrimonialistas.


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Essa tese foi formulada e publicada quando ainda não eram tão visíveis a pobreza intelectual e o fato de governantes e elites dirigentes terem se dedicado apenas a negociações da “governabilidade fisiológica”. Nem tão acentuada a selvageria de redes sociais atuando decisivamente para o comportamento tribal de bolhas que interditaram na prática qualquer debate sério sobre os principais desafios que enfrenta a sociedade brasileira (demográfico, econômico, social, geopolítico). Em dez anos, tudo piorou muito nesse contexto.

O momento é particularmente crítico, pois uma das instâncias nas quais se preservava algo como uma “doutrina” do funcionamento de instituições – o STF – entrou em profunda crise causada diretamente pelo comportamento de alguns de seus integrantes. É uma grave situação de perda de legitimidade, o que é muito preocupante para o funcionamento de qualquer instituição, ainda mais quando se trata do Judiciário.

Neste ponto se registra um fenômeno que projeta sombra pesada sobre a esperança de que “elites dirigentes” (na sociedade civil e nas instituições de Estado) acabem encontrando, diante do desenho de um possível abismo de desobediência civil, algum tipo de “concertación”. As próprias elites deixaram de confiar nas principais instituições do País, e dedicam-se a salvar cada um seu pedaço (o que é totalmente legítimo, aliás).

Brasil Adiante não deixa de ser um tipo de chamado à razão, pois várias das vozes de peso que participaram até aqui dos encontros fizeram questão de formular alertas e advertências severos. Um dos principais, também como pano de fundo das conversas, é a pergunta “Brasil adiante para onde?”

A combinação das crises doméstica e geopolítica, que expôs a situação do Brasil como uma potência média vulnerável mesmo onde é mais forte (produção de commodities agrícolas), talvez ajude a desenvolver um esforço de convergência também de opostos em torno de uma ideia de bem comum. Talvez comece pela convicção de que não há mesmo outra opção.


 
 
 

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