Prisão domiciliar para Bolsonaro não quer dizer que o abuso acabou
- Clipping Vitae
- 27 de mar.
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O mesmo juiz que era vítima da tentativa de golpe, que relatou o inquérito e que julgou, é agora o executor da sentença e fez a bondade de dizer que Jair Bolsonaro pode ir para casa quando o hospital decidir que ele já pode ter alta. Ele saiu da UTI há pouco mais de 24 horas, está no quarto e vai para casa. Ficará sob observação por 90 dias, com visitas proibidas. Os filhos, se quiserem visitá-lo, têm de marcar dia e hora, não podem aparecer a qualquer momento, quando sentirem saudade do pai. Um dos filhos, Eduardo, nem recebeu autorização. Só poderão estar com Bolsonaro a mulher, Michelle; a filha do casal, Laura; e a enteada, Letícia. Os advogados também precisam de hora marcada, terão de passar pelo 19.º Batalhão e marcar a visita. Bolsonaro ainda terá de usar tornozeleira em casa. Continuam o exagero, o arbítrio e o ineditismo dos tratamentos dados a Bolsonaro, a Filipe Martins e ao ex-ministro da Justiça Anderson Torres, alguns dos “prisioneiros favoritos” de Moraes.
Enquanto isso, o povo espera de Moraes os esclarecimentos sobre aquele contrato de R$ 129 milhões, agora que a polícia está investigando mais celulares de Daniel Vorcaro, e agora que o ministro André Mendonça mandou – o prazo termina nesta quarta-feira – Davi Alcolumbre ler no Congresso a prorrogação, por mais quatro meses, das investigações do roubo dos velhinhos da Previdência.
Para governo, facções não são terroristas, e STF finge preocupação enquanto esquece a segurança jurídica
Lula assinou a Lei Antifacção. Estamos em um país onde bandidos tocam fogo em ônibus e automóveis, dominam municípios na Amazônia e áreas do Rio de Janeiro. O governo brasileiro se recusa a reconhecer que isso é narcoterrorismo, como quer o governo dos Estados Unidos. No fim, o governo dos Estados Unidos vai mesmo considerar as facções brasileiras como narcoterroristas.
Falando em facções, o presidente do Supremo, Edson Fachin, chamou no seu gabinete o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante; e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para uma reunião sobre como combater o crime. Como se Fachin fosse ministro da Justiça e da Segurança Pública... Isso é muito estranho, soa como uma tentativa pueril, inocente e ingênua, de tentar dividir as atenções. Como se estivessem dizendo “a principal preocupação do brasileiro é a segurança, e o Supremo está se preocupando com a segurança”.
Sim, nós nos preocupamos com segurança, mas nós também queremos ter segurança jurídica. É disso que o Supremo tinha de tratar: segurança jurídica, seguindo ao pé da letra a Constituição da qual o Supremo é guardião. Então teríamos segurança: o direito de ir e vir, o direito à ampla defesa, a não existência de tribunal de exceção, o respeito ao juiz natural e ao devido processo legal, a proteção da liberdade de expressão... tudo isso está na Constituição e queremos ver cumprido, mas não foi. O inquérito do fim do mundo começou um período de sete anos de arbítrio.
Assessor é preso sacando R$ 2,7 milhões
Um assessor do deputado Vinícius Carvalho (PL-SP) foi preso na sexta-feira. O deputado diz que não tem nada a ver com isso e que demitiu o sujeito quando soube da prisão; mas Fernando José Palma Sampaio, advogado, ainda era assessor do deputado quando foi de São Paulo a Recife para sacar a bagatela de R$ 2,7 milhões. Procurem sacar R$ 10 mil e vocês verão a quantidade de notas. Pois o tal assessor sacou muito mais que isso; deve ter levado tudo num carrinho. Ele disse que havia ido a Recife para almoçar com um amigo – três amigos, aliás, foram presos também. Depois veio a audiência de custódia e foram todos soltos mundo foi solto.
É incrível como ainda viceja a corrupção, igual a anos atrás. Os políticos, pelo jeito, consideram que isso faz parte da natureza humana. Talvez seja até um direito humano. Enquanto isso, o Brasil tem um Ministério de Direitos Humanos que não mexeu uma palha sobre as injustiças cometidas contra os manifestantes do 8 de janeiro. Aqueles que quebraram e estragaram o patrimônio público têm de pagar, com isso todos concordam. Agora, dar 14 anos de prisão para quem pintou uma estátua com batom? Aí entram a raiva, o arbítrio, o ódio, a vingança, com o objetivo claro de impor o temor às pessoas. A pandemia foi a primeira experiência; como funcionou, passaram a aplicar para tudo, mas agora parece que os deuses mandaram Vorcaro para separar o joio do trigo.
Alexandre Garcia
Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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