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A escravidão da aprovação: a serenidade perdida

  • Clipping Vitae
  • 31 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A vida pessoal virou espetáculo. Redes sociais substituíram relacionamentos reais. Likes tornaram-se sinônimos de valor. Seguidores são, para muitos, símbolo de relevância. Mas, por trás da tela iluminada, cresce o número de pessoas consumidas pela ansiedade, reféns da opinião alheia.

Pessoalmente – e até por dever de ofício – estou nas redes sociais. Reconheço seu valor inestimável. As redes globalizaram o conhecimento, aproximaram culturas, abriram vias importantes para o exercício da liberdade. Mas, ao mesmo tempo, vislumbro seus riscos. A obsessão por aprovação está adoecendo a alma. Gente que acorda e dorme checando o celular. Que mede o próprio valor pela repercussão de uma postagem. Que ajusta o discurso para agradar à audiência. Que teme ser “cancelada”. A liberdade virou refém da aceitação. A consciência foi terceirizada para o tribunal instável da opinião pública digital.

A dependência dos seguidores – e a busca incessante por mais deles – é uma armadilha sutil. Não se trata apenas de vaidade ou marketing pessoal. Trata-se de uma erosão da identidade. Quando alguém passa a moldar sua vida para ser agradado, perde o eixo. Vive em função do aplauso. E, inevitavelmente, se torna escravo.

A raiz de muitos distúrbios modernos está nesse olhar invertido: o indivíduo vive voltado para fora, esperando dos outros o que só Deus pode oferecer

A crítica alheia, que antes fazia parte do convívio social normal, virou fonte de desespero. Um comentário negativo pode arruinar o dia. Um post ignorado vira motivo de frustração. O medo de parecer inadequado paralisa. A exposição constante criou uma cultura de comparação permanente. E quem vive se comparando vive em guerra com a própria realidade.

Essa dinâmica doentia não é apenas um problema psicológico. É também – e sobretudo – um drama espiritual. A ausência de uma referência superior, de um sentido transcendente, de uma rocha firme sobre a qual construir a vida, deixou o indivíduo vulnerável. A alma sem Deus é campo fértil para a insegurança crônica.

A tecnologia, bem usada, é uma aliada. Mas o uso atual, impulsivo e emocional, tem servido para inflar egos frágeis e encobrir vazios existenciais. O celular é um confessionário moderno – mas um confessionário invertido. Nele, não se busca perdão, mas validação. Não se encontra misericórdia, mas julgamento. E esse tribunal é volúvel, impiedoso e superficial.

A raiz de muitos distúrbios modernos está nesse olhar invertido: o indivíduo vive voltado para fora, esperando dos outros o que só Deus pode oferecer. Espera acolhimento, valor, amor e sentido de quem também está perdido. É a fome de infinito tentando saciar-se com migalhas digitais.


Contra essa cultura da performance, é urgente redescobrir o silêncio, a interioridade, a verdade. E, sobretudo, reencontrar o abandono em Deus. Abandonar-se em Deus não é alienação. É libertação. É descansar na certeza de que somos amados por Aquele que não muda. É deixar de correr atrás de aplausos para viver com autenticidade. É romper com a ditadura da aparência para viver na liberdade da verdade.

A fé cristã oferece esse caminho de equilíbrio. O olhar de Deus, ao contrário do olhar do mundo, não é instável. Não se baseia em números, curtidas ou algoritmos. Deus nos vê como filhos. E quem se sabe filho, amado gratuitamente, não precisa desesperadamente provar nada a ninguém.

A ansiedade, alimentada pelo excesso de estímulos e pela insegurança existencial, encontra alívio não em fórmulas mágicas, mas na confiança. Uma confiança sólida, não emocional. Uma confiança que nasce do conhecimento de Deus e do conhecimento de si mesmo.

O olhar de Deus, ao contrário do olhar do mundo, não é instável. Não se baseia em números, curtidas ou algoritmos. Deus nos vê como filhos

Santa Teresa d’Ávila resumiu isso com clareza: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta”. Essa é uma resposta possível – e urgente – ao mal-estar moderno. Mas essa entrega não é automática. Ela exige decisão. Exige romper com a lógica do mundo. Exige aceitar a impopularidade. Exige silêncio interior. Exige oração.

Quem vive da imagem acaba vazio. Quem vive da verdade, ainda que incompreendido, permanece em pé. A rocha não é a aprovação pública. A rocha é Deus. E só quem constrói sobre Ele pode resistir às tempestades.

O excesso de conectividade está nos tornando desconectados de nós mesmos. A superexposição está matando a intimidade. A necessidade constante de aplauso está minando a liberdade. E a única saída está em voltar à fonte: Deus.

É hora de desligar um pouco a tela e abrir a alma. É hora de reconhecer que a vida não cabe numa postagem

Não se trata de desprezar a crítica. Ela é, muitas vezes, necessária e formativa. Mas trata-se de não permitir que a crítica ou o elogio se tornem senhores da alma. Quando Deus é o centro, os demais julgamentos perdem o poder de nos destruir.

Há uma liberdade profunda em ser visto por Deus. Uma liberdade que o mundo não conhece. É essa liberdade que permite viver sem medo do olhar dos outros. É essa liberdade que sustenta, que equilibra, que serena.

A serenidade não é fruto de uma vida sem problemas. É fruto de uma alma ancorada. Uma alma que sabe em quem confia. Uma alma que não vive em função de curtidas, mas da verdade.

É hora de voltar ao essencial. É hora de desligar um pouco a tela e abrir a alma. É hora de reconhecer que a vida não cabe numa postagem. É hora de reencontrar a paz que só o abandono em Deus pode dar.


Carlos Alberto Di Franco

Carlos Alberto Di Franco é bacharel em Direito, especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, diretor do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia do ISE, professor convidado da Faculdade de Comunicação Social Institucional da Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma), diretor da Di Franco Consultoria em Estratégia de Mídia e consultor de Empresas Informativas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


 
 
 

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