A grande farsa do contágio interespecífico
- Clipping Vitae
- 9 de mai. de 2025
- 6 min de leitura
Como transformar uma desonestidade científica numa máquina de ganhar dinheiro. Por que exatamente Anthony Fauci e seus colegas estavam tão ansiosos para culpar os morcegos pelo SARS-CoV-2 e, depois, os pangolins em mercados úmidos? Não era só para desviar a atenção da possibilidade de o novo vírus ter vazado de um laboratório em Wuhan que fazia pesquisas de ganho de função. Havia um objetivo maior: reforçar uma narrativa muito importante sobre contágios interespecíficos, ou spillovers, zoonóticos. É um termo pomposo que se refere a um tipo de foco granular que desencoraja a opinião de leigos. Deixem isso para os especialistas! Eles sabem do que estão falando! Vamos olhar mais de perto. Há muitos anos, tem surgido uma ortodoxia emergente nos círculos epidemiológicos de que os vírus estão indo dos animais para os seres humanos com uma frequência cada vez maior. Essa é a questão principal, a alegação central, que raramente é contestada. Ela é muito repetida na literatura sobre esse assunto, assim como as alegações sobre o clima em outra literatura.
O modelo funciona assim:
Etapa 1: afirmar que o contágio interespecífico está aumentando por causa da urbanização, do desmatamento, da globalização, da industrialização, da combustão interna que emite carbono, dos animais de estimação, do colonialismo, das dietas nojentas, das saias mais curtas, de qualquer coisa que você seja contra ou de alguma combinação amorfa de todos os itens acima. Seja como for, é algo novo e está acontecendo em um ritmo cada vez mais acelerado.
Etapa 2: observar que somente os cientistas compreendem plenamente a gravidade da ameaça que isso representa para a vida humana, então eles têm uma obrigação social de se antecipar a essa tendência, o que requer pesquisas de ganho de função para misturar e fundir patógenos em um laboratório para ver quais deles representam as ameaças mais imediatas à nossa existência.
Etapa 3: para nos protegermos totalmente, é preciso usar todas as tecnologias mais recentes, incluindo — e especialmente — aquelas que permitem a produção rápida de vacinas que possam ser distribuídas no caso das pandemias inevitáveis que estão por vir, e provavelmente já estão quase aqui. Acima de tudo, isso requer testar e aperfeiçoar vacinas de mRNA que inoculam a proteína spike por meio de nanopartículas lipídicas para que possam ser impressas e distribuídas à população de forma ampla e rápida.
Etapa 4: enquanto a sociedade aguarda ansiosamente o grande antídoto para o vírus mortal que chega até nós por meio desses contágios interespecíficos terríveis, não há outra opção a não ser adotar medidas de saúde pública sensatas, como restrições extremas à sua liberdade de viajar, administrar uma atividade comercial e se reunir com outras pessoas. O objetivo principal é o monitoramento e a contenção de doenças. O alvo principal são aqueles que se comportam como se ainda existissem anacronismos como liberdade e direitos humanos.
Etapa 5: esses protocolos devem ser aceitos por todos os governos, afinal, vivemos em um cenário globalista no qual, em caso contrário, nenhum patógeno pode ser contido. Não se pode permitir que nenhuma nação siga seu próprio caminho, pois isso colocaria o todo em risco. Estamos todos juntos nessa.
Se essa forma de pensar parecer surpreendente, ridícula e assustadora, você claramente não participou de uma conferência acadêmica sobre epidemiologia, de uma feira de negócios para empresas farmacêuticas ou de um grupo de planejamento que fornece informações para as Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde. Essa é a sabedoria convencional em todos esses círculos, nada incomum nem estranha. É a nova ortodoxia, amplamente aceita por todos os especialistas na área.
A máquina de fazer fumaça
A primeira vez que ouvi falar dessa teoria completa foi em um artigo de David Morens e Anthony Fauci publicado na revista Cell em agosto de 2020. Escrito durante os lockdowns que os autores ajudaram a implementar, o texto refletia o tom apocalíptico da época. Os autores afirmaram que a humanidade deu uma guinada ruim há 12 mil anos, fazendo com que vidas idílicas enfrentassem uma miríade de infecções. Não podemos voltar a um paraíso rousseauniano, mas podemos batalhar para “reconstruir as infraestruturas da existência humana”.
Obviamente, fiquei atônito, reli o artigo com atenção e me perguntei onde poderiam ser encontradas as evidências desse grande contágio interespecífico — a afirmação empírica crucial do artigo. Eles citam muitos artigos da literatura da área, mas, quando os analisamos mais a fundo, encontramos apenas modelos, afirmações, alegações baseadas em vieses de teste e muitas outras observações incompletas.
O que encontrei foi uma máquina de fazer fumaça.
Veja bem, tudo gira em torno dessa questão. Se os contágios interespecíficos não estiverem aumentando, ou se forem apenas uma parte normal da complicada relação entre os seres humanos e o reino microbiano que coabitam com todos os seres vivos, toda a agenda política desmorona.
Se os contágios entre espécies não forem um problema urgente, a justificativa para o ganho de função se esvai, assim como a necessidade de financiamento, a pressão pelas vacinas e os esquemas malucos de lockdown até que o antídoto chegue. É a etapa crucial, que na maioria das vezes passou despercebida pela atenção pública séria, mas que é quase universalmente aceita no domínio do que hoje é chamado de saúde pública.
Sem o pânico dos contágios entre espécies, desaba a justificativa para vacinas apressadas, pesquisas de ganho de função e lockdowns autoritários disfarçados de ciência | Foto: Shutterstock
Um sujeito cita o outro
Quem está contestando isso? Acaba de ser publicado no Journal of Epidemiology and Global Health um artigo extremamente importante intitulado “Natural Spillover Risk and Disease Outbreaks: Is Over-Simplification Putting Public Health at Risk?” (“Risco de Transmissão Natural e Surtos de Doenças: a Simplificação Excessiva Está Colocando a Saúde Pública em Risco?”), escrito pela equipe da REPPARE, apoiada pela Brownstone. É quase um milagre que esse artigo tenha passado pela revisão dos pares, mas aqui está.
Os autores apresentam a seguinte premissa central:
“Os argumentos que sustentam a política de pandemia estão fortemente baseados na premissa de que o risco de pandemia está aumentando rapidamente, impulsionado em especial pela passagem de patógenos de reservatórios animais para estabelecer a transmissão na população humana: ‘spillover zoonótico’. Os fatores propostos para o aumento dessa transmissão baseiam-se principalmente nas mudanças ambientais atribuídas à origem antropogênica, incluindo desmatamento, expansão e intensificação agrícola e mudanças climáticas.”
E a observação:
“Se houver um viés genuíno de atribuição incorreta em relação ao risco de spillover e ao consequente risco de pandemia, isso pode distorcer a política de saúde pública com consequências de longo alcance potencial nos resultados de saúde.”
Em seguida, fazem um exame cuidadoso da literatura geralmente citada como evidência. O que eles encontram é um típico jogo de roleta de citações: esse sujeito cita esse sujeito, que cita esse sujeito, que cita aquele sujeito, e assim por diante, girando em círculos de um aparato que parece confiável, mas é totalmente desprovido de qualquer substância real. Os autores escrevem:
“Vemos um padrão de declarações assertivas sobre o rápido aumento do risco de doenças com impactos antropogênicos na ecologia provocando esse impulsionamento. Essas citações são muito usadas, baseando-se fortemente em opiniões, que são um substituto ruim para evidências. Mais preocupante ainda, existe uma tendência consistente de deturpação dos artigos citados.”
Doutrina bem paga
Já vimos esse filme muitas vezes. Além do mais, existe uma literatura amplamente ignorada — que examina detidamente muitos dos supostos fatores causais que provocam os contágios interespecíficos — que apresenta sérias dúvidas sobre qualquer conexão causal. Os autores então comparam os artigos céticos com os artigos de opinião normalmente citados e chegam à conclusão de que o que aconteceu foi uma ortodoxia desprovida de evidências criada para fundamentar um projeto industrial.
“Existem várias razões possíveis para essa tendência de fazer referência a opiniões como se fossem fatos. O campo tem sido relativamente pequeno, com autoria compartilhada em muitos artigos. Isso coloca em risco o desenvolvimento de um mecanismo de referência circular, revisão e reforço de opiniões, protegendo as afirmações de investigações céticas ou revisões externas. O aumento do interesse dos financiadores do setor privado nas instituições de saúde pública, incluindo a OMS, e sua ênfase em commodities nas respostas de saúde, pode aprofundar essa câmara de eco, inadvertidamente rebaixando ou ignorando descobertas contrárias, ao mesmo tempo que enfatiza os estudos que apoiam mais financiamento.”
Dá para ver o padrão aqui? Qualquer pessoa que tenha acompanhado a sociologia da “ciência” nos últimos cinco anos consegue ver. É o pensamento de grupo, a aceitação de uma doutrina acreditada porque todos os colegas acreditam nela. Seja como for, é um trabalho bem pago.
‘Temos contatos na mídia?’
Agora podemos explicar melhor por que Fauci e os demais foram tão enfáticos ao afirmar que o coronavírus de 2019 não teve origem em um laboratório para o qual eles haviam conseguido financiamento, e sim que ele veio de um morcego ou de outra coisa saída de um mercado úmido.
A narrativa do mercado úmido não foi criada apenas para encobrir o esquema e se esquivar da culpa por uma pandemia global de qualquer nível de gravidade. Foi também para utilizar as consequências potencialmente catastróficas e o consequente pânico da população como uma justificativa para continuar seus próprios experimentos biológicos e esquemas de financiamento.
— Infelizmente, parece que temos um vazamento de laboratório.
— Não se preocupe. Vamos encontrar alguns cientistas e direcionar recursos para provar que o patógeno em questão teve origem em um contágio interespecífico zoonótico, provando assim que precisamos de mais financiamento.
— Excelente, doutor Fauci! Temos contatos na mídia?
— Temos, sim. Vamos cuidar disso.
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