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A ilusão da escolha: sistema político premia quem mente bem e manipula emoções

  • Clipping Vitae
  • 24 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Há uma ideia persistente e perigosa: a de que os males da política são apenas morais, e bastaria o eleitor escolher “pessoas boas” para tudo se resolver. Mas o problema do Brasil – e de boa parte das democracias – não é apenas a falta de virtude individual, mas um sistema político-eleitoral cuja arquitetura premia o comportamento errado, desestimula a verdadeira representação e penaliza a honestidade. É um sistema em que fazer o certo custa caro demais, e no qual o errado se torna o caminho natural. Chamemos isso pelo nome: é um sistema inviável.

Ensinam ao cidadão que ele vive em uma democracia onde ele, periodicamente, exerce o direito de escolher seus governantes. Essa promessa é a base do sistema democrático. Mas um olhar cuidadoso revela uma ilusão.

O jogo obriga o político a dedicar mais energia à sua reeleição do que à sua missão. Esse modelo recompensa o discurso populista e a promessa impossível, desvaloriza o planejamento de longo prazo e impede cortes de gastos. Responsabilidade fiscal vira sinônimo de suicídio eleitoral

A maioria dos eleitores vota sem conhecer os candidatos ou suas ideias, e sem compreender o funcionamento do sistema político. A tarefa do eleitor, que deveria ser um ato de razão e responsabilidade, transformou-se num ritual de confusão e desânimo. O eleitor não tem tempo ou recursos para fazer uma escolha informada e consciente. A principal razão é o número de candidatos. Nas eleições de 2022, por exemplo, o estado de São Paulo registrou 1.540 candidatos a deputado federal e 2.059 candidatos a deputado estadual. Quem tem tempo para comparar os dados, programas e propostas de todos os candidatos?

Do outro lado estão os políticos. Muitos entram na política com boas intenções, mas rapidamente descobrem a regra não escrita: quem quiser sobreviver precisa se adaptar. Isso, inevitavelmente, exige alianças com quem tem dinheiro, tempo de TV e influência partidária. O jogo obriga o político a dedicar mais energia à sua reeleição do que à sua missão. Esse modelo recompensa o discurso populista e a promessa impossível, desvaloriza o planejamento de longo prazo e impede cortes de gastos. Responsabilidade fiscal vira sinônimo de suicídio eleitoral.

O político que tentar dizer a verdade – que ousar dizer que o Estado está quebrado, que benefícios precisam ser revistos e privilégios precisam acabar – é massacrado. O populista, que mente descaradamente e distribui o que não existe, é aplaudido. Depois de poucas eleições, a seleção natural faz o resto: os piores sobrevivem enquanto os melhores desistem.

Todo sistema político cria uma economia moral, um conjunto de recompensas e punições, que orienta o comportamento dos políticos. Em um sistema de voto proporcional e obrigatório, com máquinas partidárias financiadas com dinheiro público, um Estado inchado e interventor, e um péssimo sistema de ensino, as recompensas vão para quem mente bem, negocia favores e manipula emoções.


A aparência é mais importante que a realidade. A política virou espetáculo. A eleição é decidida por marqueteiros. O candidato é um produto embalado com frases curtas, gestos ensaiados e promessas impossíveis. A emoção substitui a razão, o meme substitui o argumento e o escândalo substitui o debate. O eleitor, cansado e desiludido, mas sempre esperançoso, se deixa enganar – não por burrice, mas porque não tem qualquer alternativa. Nesse ambiente, o político oportunista leva uma vantagem quase insuperável.

A alternância de poder se torna uma farsa. Os nomes mudam, as siglas se revezam, mas o mecanismo permanece. O voto troca os atores, mas não o roteiro. O eleitor esforçado – informado e patriota – é uma minoria sufocada. Ele tenta resistir, tenta se informar, tenta “escolher bem” os candidatos e votar com consciência. Mas o campo está minado: a máquina partidária o engana, a propaganda o confunde, o discurso moralista o cansa e o sistema o pune com más opções. De tanto apanhar, o cidadão se resigna, a esperança se torna episódica e a descrença, permanente.

O Estado continua sendo propriedade privada das elites políticas. O político aprende cedo que o sucesso não está em servir ao povo, mas em controlar o acesso aos cofres públicos. O eleitor é forçado a financiar o poder que o oprime – e, quando reclama, ouve que “a culpa é do eleitor, que não soube escolher bem seus candidatos”.


Roberto Motta

Roberto Motta é pesquisador da área de segurança pública, ex-consultor de tecnologia do Banco Mundial e ex-Secretário de Estado do Conselho de Segurança do Rio de Janeiro. É autor de 4 livros: “Ou Ficar A Pátria Livre”,  “Jogando Para Ganhar: Teoria E Prática da Guerra Política”, “Os Inocentes do Leblon” e "A Construção da Maldade: Como Ocorreu a Destruição da Segurança Pública Brasileira". É graduado em engenharia pela PUC-RJ, tem mestrado em gestão pela Fundação Getúlio Vargas. Foi um dos fundadores do Partido Novo e é comentarista na Jovem Pan News. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


 
 
 

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