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A intolerância nas universidades

  • Clipping Vitae
  • 26 de set. de 2025
  • 6 min de leitura

Quando apenas um único ponto de vista predomina, as ideias não podem ser testadas pela realidade, o que torna a sociedade um mundo do faz de conta

Disfarçado de “pedagogia da libertação”, “formação crítica”, “sensibilidade social” e outras máscaras, o veneno ideológico transformou escolas e universidades em todo o Ocidente em centros de militância esquerdista e institutos de intolerância, onde somente o pensamento único é admitido e qualquer visão divergente é carimbada imediatamente de retrógrada, preconceituosa, elitista ou “fascista”. A atestar que esse triste quadro também está presente no Brasil, dentre tantos outros exemplos, está o incidente ocorrido recentemente em Curitiba, com o cancelamento das palestras que o advogado Jeffrey Chiquini e o vereador Guilherme Kilter iriam fazer — a convite dos próprios alunos — na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, pela ação intolerante de um grupo com cerca de 800 manifestantes, que cercaram o prédio e inviabilizaram a realização do evento. A polícia dissolveu a manifestação, mas as palestras não aconteceram, o que causou prejuízo aos 300 alunos que haviam se inscrito.

Deveria ser inquestionável que um dos principais objetivos da educação é formar cidadãos com uma construção plural, livres e capazes de pensar por conta própria, mas, infelizmente, o que se vê nas salas de aula e nos campi é exatamente o contrário: professores comprometidos com causas políticas de esquerda e que, não raramente, utilizam as disciplinas que ministram como pretextos para promover sua visão ideológica e até mesmo fazer política partidária.

 

A esquerda dita a “Educação”

A hegemonia do pensamento progressista nos meios acadêmicos, no Brasil e no Ocidente, não é fruto do acaso. Desde os anos 1980, ao encampar o pensamento gramsciano e adotar a cartilha da Escola de Frankfurt, a esquerda percebeu que, para transformar a sociedade, seria necessário primeiro ocupar os espaços educacionais, culturais e artísticos. Nessa esteira é que Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, com aquela risível prolixidade calculada — que lhe dava ares intelectuais e lhe rendia a admiração dos boçais — sustentava que, mais do que ensinar a ler, escrever e fazer contas, a pedagogia precisava propor uma reinterpretação marxista da realidade. É a “pedagogia do oprimido”, responsável, primeiro, pela construção de gerações de brasileiros idiotas e semianalfabetos, reduzidos à condição de meros repetidores de chavões; segundo, pelo consequente desempenho vergonhoso de nossos estudantes em comparações internacionais; e, terceiro, pela produção de milhões de eleitores cativos dos partidos de esquerda.

 

Esse processo de fabricação de aparvalhados começa no bê-á-bá e vai até o pós-doutorado. O cenário é ainda mais visível nas áreas de ciências humanas, em que abundam “pesquisas” voltadas para o que a filósofa norte-americana Kimberlé Williams Crenshaw chamou de “interseccionalidade”, ou seja, a sobreposição e interação de temas — apresentados como formas de opressão — como racismo, sexismo, classismo, homofobia, capacitismo e outros assuntos que, na maioria das vezes, apoiam-se em premissas muito mais ideológicas do que científicas. Quem conhece o meio universitário sabe que há uma abundância de relatos de alunos, e mesmo de docentes, que foram marginalizados ou até retaliados academicamente, simplesmente por questionarem essas abordagens. 

 

A marginalização das divergências

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas de 2021 apontou que mais de 70% dos professores universitários da área de ciências humanas se identificam ideologicamente com a esquerda e que somente 6% declararam alguma afinidade com ideias conservadoras. Ou seja, diversidade de pensamento nas universidades é um bem muito escasso.

 

No ensino médio, o problema é o mesmo: um levantamento do Instituto Millenium de 2022 revelou que 64% dos alunos relataram já ter presenciado declarações abertamente políticas de professores em sala de aula, a maioria com viés crítico ao capitalismo, aos empresários, ao agronegócio, à economia de mercado, à família e a outros valores tradicionais, e 41% disseram que se sentem receosos de expressar opiniões conservadoras.

 

É bastante perceptível o silenciamento da visão de mundo liberal e conservadora: enquanto qualquer pensador de esquerda, por maior que seja a sua mediocridade ou a fraqueza de seus argumentos, é enaltecido, autores como Bruno Leoni, Roger Scruton, Olavo de Carvalho, Russell Kirk, Eric Voegelin e Jordan Peterson, entre muitos outros, são sistematicamente ignorados nos currículos acadêmicos. Em minha área de conhecimento, há gerações de economistas que se formaram e chegaram a completar o doutoramento sem sequer terem conhecimento de quem são, por exemplo, Thomas Sowell e Israel Kirzner e de quem foram Richard Cantillon, Frédéric Bastiat, Carl Menger, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Milton Friedman e Murray Rothbard, mas que foram bombardeados com ideias de John Maynard Keynes, Celso Furtado, Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Thomas Piketty e um sem número de outros economistas “progressistas”.

 

O material didático das escolas, dirigido pelo MEC e centralizado no estilo soviético, apresenta invariavelmente uma narrativa enviesada da história do Brasil, demonizando desde a família imperial ao “regime militar” e idealizando movimentos e personagens da esquerda armada como se fossem heróis da democracia. A Controladoria-Geral da União revelou, em 2020, em auditoria sobre o conteúdo dos livros didáticos, que mais de 80% das obras distribuídas pelo MEC exaltavam figuras e movimentos ligados à esquerda, enquanto personalidades de pensamento liberal ou conservador eram omitidas, ou mencionadas de forma negativa.

 

Em 2018, uma pesquisa do Datafolha revelou que 70% da população brasileira é contra a doutrinação política em sala de aula, independentemente da corrente ideológica. O mesmo levantamento apontou que 65% dos brasileiros acreditam que os professores devem se abster de expor suas opiniões políticas durante as aulas. Nos Estados Unidos, a Heterodox Academy, organização fundada em 2015 por Jonathan Haidt para promover a diversidade política nos campi universitários, em estudo de 2020, mostrou que mais de 70% dos professores da área de ciências humanas se identificam como liberals (“progressistas” no contexto norte-americano), enquanto menos de 10% se declaram conservadores. Em 2019, reportagem do jornal britânico The Times informou que 46% dos acadêmicos conservadores do Reino Unido disseram se autocensurar por medo de retaliação.

 

 

Por sua vez, o Instituto Paraná Pesquisas, em 2017, apurou que 80,3% dos professores da educação básica avaliaram positivamente os governos do PT, sinalizando um predomínio “progressista” entre educadores, o que inevitavelmente se reflete na formação dos alunos.

 

Nas aulas de História, Sociologia e Ciência Política, em todos os níveis de ensino, o capitalismo é invariavelmente apresentado como um sistema opressor e a liberdade econômica como um elemento concentrador de riqueza, enquanto o socialismo é tratado com uma simpatia burra e doentia, que ignora sem qualquer cerimônia seus incontáveis fracassos históricos e seus muitos milhões de mortos, mas cuida de impor uma visão única que condiciona o aluno a adotar a postura política desejada pelos “educadores”.

 

Doutrinação ideológica e intolerância

Mas a doutrinação ideológica vai além de moldar opiniões: além das distorções irrecuperáveis que provoca nas mentes, ela alimenta a intolerância e, em casos extremos, é usada para legitimar a violência. O assassinato recente de Charlie Kirk, pelo simples fato de ser um ativista conservador, além de chocar o mundo, expôs um fenômeno perturbador: as não poucas reações de indiferença ou até de escárnio vindas de setores da mídia e de indivíduos e grupos militantes de esquerda, em todo o Ocidente, com as subsequentes reações da direita.

 

É evidente que tal comportamento desumano e cruel não tem explicação isolada, por estar inserido no “estado geral das artes” descrito acima, em que, durante décadas, universidades e espaços culturais vêm apresentando e impondo apenas uma narrativa política — a sua! — como moralmente legítima. A doutrinação ideológica nas salas de aula e nos meios de comunicação cria uma divisão maniqueísta, em que os que compartilham a agenda “progressista” são vistos como virtuosos e os que discordam são rotulados de “extremistas”, “inimigos da democracia” ou do “Estado Democrático de Direito”. Quando esse enquadramento se torna hegemônico e o que deveria ser regra — a pluralidade — passa a ser exceção, torna-se manifesto que a intolerância deixa de ser tratada como uma falha moral a ser desprezada, para ser considerada como um dever patriótico, um ato “antifascista” de bravura a ser cultivado e que garante uma vaga no “clube dos bonzinhos”.

 

Esse desprezo pela morte criminosa e brutal de um adversário político não surge do nada, mas é fruto de muitos anos de ações sistemáticas para deslegitimar as diferenças, ridicularizar os valores conservadores e hostilizar o verdadeiro debate, cultivadas em ambientes onde, paradoxalmente, fala-se o tempo todo em “diversidade” e em “combater extremismos”, mas em que a pluralidade intelectual é substituída pela aceitação ideológica passiva e o verdadeiro extremismo está dentro de casa, esparramado no sofá e com as pernas na mesinha. Com efeito, décadas de doutrinação “justificam” que qualquer opositor seja enfrentado não com argumentos, mas com agressões físicas ou mesmo tiros de fuzis, e que palestrantes que têm ideias opostas ao padrão permitido sejam impedidos de falar em universidades públicas.

 
 
 

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