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O homem que barra a Anistia

  • Clipping Vitae
  • 28 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

O que impede Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, de entrar para a História, decolar na política e agir pela libertação dos presos políticos?

Numa das semanas mais tensas das últimas décadas no país, o deputado gaúcho Marcel van Hattem (Novo-RS) disse uma frase, em meio a um desabafo no plenário da Câmara, que resume o sentimento de centenas de milhares de brasileiros: “Eu me sinto enrolado, senhor presidente”. À sua frente estava o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

 

Van Hattem falava sobre uma sequência de decisões de Motta que não têm amparo no Regimento da Câmara, um manual considerado sagrado por assessores concursados e deputados que conhecem os caminhos do Legislativo. Desde a eleição de Hugo Motta, em fevereiro, isso se tornou frequente. No seu desabafo (veja o vídeo a seguir), Van Hattem afirma que o presidente sequer ouve os funcionários mais experientes da Casa sobre como conduzir as sessões no Plenário — o Regimento foi atualizado e repassado ao corpo técnico em versão mais didática recentemente. E isso também é inédito: a Câmara sempre seguiu a cartilha como uma espécie de religião. Um exemplo lembrado é a figura de Mozart Vianna, uma lenda nos corredores do Congresso Nacional, apelidado de “Doutor Mozart” (morreu em 2021). Foi funcionário da Câmara por 40 anos, 22 deles como secretário-geral da Mesa. Trabalhou com 12 presidentes. Ele passava as sessões em pé, virava noites de votações e puxava a orelha dos membros da Mesa Diretora se algo saísse da linha. “Doutor Mozart” tinha uma máxima: seguir à risca o Regimento e cumprir o acordo do colégio de líderes.

 

Motta, contudo, não segue esse script. Para a oposição, tem feito algo mais grave: não cumpre acordos firmados a portas fechadas. O principal deles foi o Projeto de Lei da Anistia. O paraibano foi eleito em fevereiro com expressivos 444 votos. A argamassa desse placar foram os votos de deputados do PL — sozinha, a legenda tinha 100 cadeiras na época. A direita optou por não “bater chapa”, ou seja, aceitou o acordo fechado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo o qual ele pautaria o projeto da Anistia. Quase um ano depois, o discurso na Casa é de que foram traídos.

 

Nesta semana, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, deixou tudo isso às claras numa entrevista à CNN. “Quando decidimos apoiar a candidatura do Hugo Motta e do Davi Alcolumbre, pessoalmente, Jair Bolsonaro tratou com ambos os candidatos a presidentes, de que nós só tínhamos dois compromissos: os vice-presidentes das Casas seriam do PL, e a votação da Anistia”, afirmou. “Vai terminar o ano e o presidente Hugo Motta não vai cumprir o combinado.”

 

 

Por que Hugo Motta não cumpriu o combinado? Oficialmente, ele afirmava nos microfones que não havia maioria para votar. Esse discurso durou até o dia 17 de setembro, quando a oposição aprovou a urgência para votar o projeto com 311 votos a favor. Detalhe: o caminho mais difícil era justamente obter número superior a 257 para conseguir emplacar a urgência. A partir de agora, como se trata de um projeto de lei simples, pode ser aprovado com a maioria dos presentes no plenário — por exemplo: se lá estiverem 300 deputados, bastam 151 votos. 


Então qual a desculpa de Motta? Desde a aprovação da urgência, quando a oposição provou que tem número suficiente, ele não fala mais no assunto — simplesmente, não pauta. Além disso, quando a população promoveu manifestações nas ruas pela Anistia, em setembro, ele encarregou o deputado Paulinho da Força Sindical (Solidariedade-SP) de elaborar um texto apelidado de “PL da Dosimetria”. Paulinho pediu a ajuda de Aécio Neves (PSDB-MG) para redigir o monstrengo jurídico, que até hoje não foi concluído. Nos bastidores, deputados afirmam que Aécio foi escalado pelo decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, de quem é amigo, para não permitir que o texto beneficie o ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

Diante do enorme desgaste com metade da Câmara, Hugo Motta tentou uma jogada: enfrentar o governo Lula da Silva — jamais os ministros do Supremo.

 

Na prática, a ideia de Motta era emplacar um projeto que aliviasse as penas dos condenados pelo tumulto de 8 de janeiro de 2023, reduzindo a pressão popular que poderia crescer, mas sem beneficiar políticos ou militares que atuaram na gestão Bolsonaro. Como os atos nas ruas arrefeceram, até essa saída alternativa ficou para trás.

 

Uma pergunta, no entanto, ainda atiça parte da população: o que levou um deputado tão jovem — foi o mais novo na história a chegar à Câmara, com 21 anos — a arriscar seu futuro político? O que, realmente, aconteceu? Em tempo: ele assumiu a cadeira de presidente da Câmara com um discurso firme, prometeu defender o Parlamento e repetiu o gesto de Ulysses Guimarães, em 1988, ao erguer a Constituição.

 

Algumas respostas são possíveis: a principal delas é que Motta jamais poderia ter aceitado o convite para jantar na casa do ministro Alexandre de Moraes, pouco tempo depois de ser eleito. Naquele encontro, acabou ladeado por outros ministros do consórcio de toga que persegue a direita desde 2019, pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e pelo diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Paralelamente, a Polícia Federal decidiu realizar uma operação, batizada de Outside, na pequena cidade de Patos, no sertão da Paraíba. Trata-se de uma investigação de superfaturamento e desvios nas obras de restauração de avenidas da Alça Sudeste e da Avenida Manoel Mota (Alça Sudoeste) — um contrato de R$ 5 milhões. Segundo o portal Metrópoles, o dinheiro do governo federal foi apadrinhado por emendas de Hugo Motta. Uma empreiteira pequena é o alvo central, mas, de acordo com os documentos, ocorreu o chamado “jogo de planilha” — entenda-se: direcionamento de licitação, fraude na concorrência pública. É aí que entra um personagem importante na equação: o prefeito de Patos, Nabor Wanderley, é pai de Hugo Motta. Ele está na mira da Polícia Federal.

 

A família Motta administra Patos, cidade com 100 mil habitantes, a 300 quilômetros de João Pessoa, como uma dinastia. É daqueles casos de novela em que duas famílias poderosas casam os filhos e acumulam poder por décadas. A cidade tem ruas com seu sobrenome. Os avôs de Motta eram políticos. O pai de Motta, aliás, é tratado como pré-candidato ao Senado nos jornais da Paraíba.

 

Diante do enorme desgaste com metade da Câmara, Hugo Motta tentou uma jogada: enfrentar o governo Lula da Silva — jamais os ministros do Supremo — com um projeto de lei de segurança pública, a pauta da vez no país, como mostrou a capa da última edição de Oeste. Tentou aparecer diante das câmeras ao lado de políticos de direita para melhorar sua imagem. O gabinete, que tem apoio de jornalistas e de um marqueteiro, conhecidos em Brasília, tentou fabricar a figura de um presidente da Câmara firme — o que ele não é. Deu errado.

 

Não se sabe o que Hugo Motta ouviu naquele jantar na casa de Alexandre de Moraes, com a Polícia Federal sentada à mesa. Seu pai seria preso? Talvez nunca se saiba. Fato é que os brasileiros terminam a semana ainda mais aflitos diante do funeral da democracia. E Motta escolheu deixar seu retrato na galeria de presidentes da Câmara dos Deputados como só mais um na enorme parede — em breve, ninguém se lembrará.

 
 
 

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