O Poço de Depravação e o Caos: a Conexão Russa no Caso Epstein
- Clipping Vitae
- 6 de fev.
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Por Françoise Thom30 de julho de 2025
Neste artigo explosivo, a historiadora francesa Françoise Thom destaca a estreita relação entre o falecido financista Jeffrey Epstein e o pai de sua cúmplice Ghislaine, Robert Maxwell, o falecido magnata da imprensa britânica, por um lado, e os altos escalões do poder soviético e, posteriormente, russo, por outro. Isso levanta uma questão perturbadora: e se fosse o FSB que detivesse a infame “lista” de clientes de Epstein? Que melhor forma de comprometer a elite americana do que possuir provas de participação em orgias com menores?
O caso Epstein está associado, no imaginário público, ao escândalo de uma gigantesca rede pedófila que Epstein e sua cúmplice Ghislaine Maxwell organizaram e exploraram impunemente durante anos. A questão das proteções ocultas desfrutadas pelos dois cúmplices deu origem a uma proliferação de hipóteses, incentivadas pelo próprio Epstein, que afirmava “pertencer à inteligência”.
O movimento MAGA insiste no papel do Mossad na ascensão meteórica do vigarista pedófilo. Tucker Carlson afirma que Epstein era um agente israelense e que Trump estaria encobrindo o caso por esse motivo. A esquerda acusa a CIA de ter desempenhado um papel na rápida libertação de Epstein após sua primeira prisão, em 2008. Em 2019, a mídia estatal russa explorou intensamente o caso Epstein, uma oportunidade de ouro para denunciar as “elites globais degeneradas”.
Nos Estados Unidos, o debate político gira obsessivamente em torno da “lista de clientes”, a árvore que esconde a floresta: a construção de um império de chantagem cujos produtos são acessíveis a potências hostis. Quanto ao presidente Trump, muitos observadores se surpreenderam ao vê-lo equiparar o caso Epstein ao que ele chama de “Russia Hoax”, a investigação sobre a interferência russa a seu favor na eleição de 2016.“Por que ele está ligando Epstein à Rússia?”, pergunta Christopher Steele, ex-agente do Serviço Secreto de Inteligência britânico e especialista em Rússia. “É claro que, na mente dele, Epstein está associado à Rússia.”
A conexão russa: o que está documentado
Não há registro de que Epstein tenha viajado para a Rússia antes de 2014. Isso não significa que ele nunca tenha visitado Moscou anteriormente (ver abaixo). A conexão russa de Epstein foi documentada pela primeira vez após a publicação de uma investigação aprofundada do Dossier Center, uma organização de hackers financiada por Mikhail Khodorkovsky.
Ela revelou que existia uma parceria genuína entre Jeffrey Epstein e o Kremlin, altamente lucrativa para ambas as partes. Epstein mantinha um contato de altíssimo nível com Moscou. Ele estava interessado em explorar as oportunidades financeiras excepcionais oferecidas pela Rússia; o Kremlin, por sua vez, buscava aconselhamento desse especialista em paraísos fiscais e lavagem de dinheiro, recrutando-o para ajudar a fornecer cobertura a agentes russos enviados aos Estados Unidos e utilizando seus talentos como recrutador para facilitar o acesso a alvos americanos de interesse do FSB.
Essa relação de confiança não foi construída da noite para o dia e deve ter existido muito antes de 2014.
O contato de Epstein era Sergei Belyakov, então vice-ministro do Desenvolvimento Econômico e, posteriormente, diretor da Fundação do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF). Sua missão era atrair investimentos estrangeiros. O Fórum de São Petersburgo é um terreno fértil para acompanhantes atraentes encarregadas de fisgar empresários em nome dos serviços russos. Não surpreende que Belyakov seja também graduado pela Academia do FSB.
Sua carreira ascendeu rapidamente. Foi assessor do oligarca Oleg Deripaska, depois assistente da ministra do Desenvolvimento Econômico Elvira Nabiullina, hoje presidente do Banco Central da Rússia.
Documentos hackeados pela equipe do Dossier Center revelam que, na primavera de 2014, Belyakov solicitou conselhos de Epstein sobre como contornar as sanções ocidentais. Uma das ideias era a criação de um “novo banco”, inspirado em um modelo capitalista de banco comercial, capaz de emprestar nove vezes suas reservas. Epstein também sugeriu lançar uma alternativa ao bitcoin chamada BRIC, além da possibilidade de conceder empréstimos no valor de “500 bilhões” (sem especificar a moeda). Acreditava ainda que a Rússia poderia criar moedas lastreadas em petróleo ou desenvolver “contratos inteligentes” regulados por computadores.
Epstein, portanto, fornecia ao Kremlin estratégias para enfrentar a guerra econômica conduzida pelo Ocidente.
Além disso, usou sua rede para enviar executivos ocidentais de alto nível ao Fórum de São Petersburgo, como Reid Hoffman (cofundador do LinkedIn) e Nathan Myhrvold (ex-diretor de tecnologia da Microsoft), para possível cooptação. Essa ajuda foi crucial num momento em que muitos ocidentais boicotavam a Rússia.
Em julho de 2014, Belyakov interveio pessoalmente para ajudar Epstein a obter um visto russo e organizou reuniões de alto nível em Moscou com figuras centrais da política econômica russa. Não se sabe, contudo, se a visita realmente ocorreu.
Sexo, chantagem e inteligência
Em julho de 2015, Epstein pediu ajuda urgente a Belyakov: uma “garota russa de Moscou, Guzel Ganieva”, estava em Nova York tentando chantagear um grupo de empresários poderosos. Ganieva havia envolvido Leon Black, amigo próximo de Epstein. Belyakov forneceu um dossiê completo sobre ela, afirmando que agia sozinha e que seria sensível à ameaça de deportação. Leon Black pagou somas enormes a Epstein.
O Comitê de Finanças do Senado dos EUA analisou parte de um arquivo confidencial do Departamento do Tesouro. Ele mostra que Epstein utilizou diversos bancos russos — hoje sob sanções — para processar pagamentos relacionados à sua rede de tráfico sexual. Muitas vítimas vinham da Rússia, Bielorrússia e Europa Oriental, criando um elo financeiro direto entre sua organização criminosa e instituições financeiras da região.
Em apenas uma conta bancária, foram registradas 4.725 transferências, totalizando quase US$ 1,1 bilhão.
Infiltração em ciência, tecnologia e IA
Epstein demonstrava predileção por funcionárias russas. Sua assistente, Svetlana (Lana) Pozhidaeva, obteve um visto O-1 (“talento extraordinário”) graças a uma carta de recomendação de Belyakov.
Formada pelo prestigiado MGIMO, instituto que forma diplomatas e agentes de inteligência russos, Pozhidaeva acabou atuando como modelo ligada à agência de Jean-Luc Brunel, cúmplice de Epstein. Tornou-se associada direta de Epstein e envolveu-se em projetos de filantropia ligados à ciência e tecnologia, financiados majoritariamente por ele.
Para Yuri Shvetz, desertor da KGB, o caso é claro: Pozhidaeva seria uma agente infiltrada para penetrar redes americanas ligadas a supercomputadores e inteligência artificial — áreas consideradas estratégicas por Putin.
Outro caso semelhante é o de Maria (Masha) Drokova, ex-ativista pró-Putin, ligada ao movimento juvenil Nashi. Ela se tornou secretária de imprensa de Epstein e, posteriormente, fundou um fundo de capital de risco no Vale do Silício, Day One Ventures, que já levantou mais de US$ 70 milhões, provavelmente de origem russa.
Bancos cúmplices e lavagem de dinheiro
O envolvimento de Epstein causou sérios problemas ao Deutsche Bank, multado em US$ 150 milhões por ignorar alertas de lavagem de dinheiro envolvendo Epstein e oligarcas russos. O JPMorgan Chase também pagou US$ 365 milhões em acordos judiciais relacionados ao mesmo esquema.
O legado de Robert Maxwell
A estratégia de Epstein espelha a de Robert Maxwell, pai de Ghislaine: fusão de poder midiático, fraude financeira e exploração de serviços de inteligência. Maxwell manteve relações profundas com MI6, KGB e Mossad, atuando como agente de influência e intermediário financeiro do Kremlin durante décadas.
Após sua morte misteriosa em 1991, descobriu-se que havia saqueado fundos de pensão de seus próprios funcionários. Documentos indicam que o KGB o considerava um ativo estratégico de alto nível.
Epstein herdou não apenas Ghislaine, mas parte desse ecossistema de chantagem, inteligência e poder.
O império do “kompromat”
Na Rússia pós-soviética, Epstein aprendeu o valor do kompromat — material comprometedor usado como arma política. Putin transformou essa prática em instrumento central de governo e, depois, de política externa.
Epstein criou, nos Estados Unidos, um verdadeiro supermercado de kompromat, acessível a quem pudesse pagar. Ele compreendeu que os ricos controlam tudo, exceto sua reputação — e explorou isso até se tornar bilionário.
Epstein, Trump e o colapso final
Epstein e Trump foram próximos entre os anos 1980 e 2004. Após um rompimento por uma disputa imobiliária, tornaram-se inimigos. Epstein alegava possuir informações devastadoras sobre Trump e Hillary Clinton.
Preso em julho de 2019, Epstein foi encontrado morto em sua cela em agosto do mesmo ano.
A desclassificação dos arquivos Epstein tornou-se bandeira política. As teorias conspiratórias que alimentaram campanhas agora se voltam contra seus próprios criadores.
A moral pode ter abandonado a política, mas ainda tem lugar na história.
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