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Ter o próprio negócio é o maior sonho da periferia para 2026, diz pesquisa

  • Clipping Vitae
  • 27 de fev.
  • 3 min de leitura

Ter o próprio negócio é o maior desejo de moradores de comunidades vulneráveis, segundo a pesquisa Sonhos da Favela 2026, realizada pelo Data Favela. O levantamento investiga condições de vida nesses territórios do país e revela o que seus moradores esperam conquistar neste ano.

Segundo o estudo, 38% dos entrevistados desejam abrir um negócio; outros 24% querem trabalhar com o que gostam e 16% miram concursos públicos.

Para Cleo Santana, presidente do instituto e diretora da Escola de Negócios da Favela, o dado indica mais do que uma vocação empreendedora. "Empreender na favela é o 'sevirômetro'", diz ela sobre a linguagem da quebrada que indica se virar para colocar renda dentro de casa.

Moradores da favela de Paraisópolis, se aquecendo diante de fogueira feita em cima de morro, em São Paulo (SP) - Folhapress

"Existe, sim, gente com visão extraordinária para criar negócios. Mas essa resposta também aponta uma carência estrutural. Quando não há políticas eficazes de inserção no mercado formal, o empreendedorismo surge como alternativa imediata de sobrevivência."

A pesquisa feita em parceria com a Data Goal, plataforma especializada na coleta e análise de dados digitais, foi aplicada via WhatsApp. A amostra de 4.471 pessoas reúne moradores de favelas das cinco regiões do país, com ênfase em comunidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

De acordo com o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 16,4 milhões de pessoas moram em favelas e comunidades urbanas no Brasil.

Para contextualizar essas metas, o estudo também avaliou as condições de vida dessa população, considerando transporte, saúde, educação e infraestrutura territorial.

"Os sonhos estão diretamente ligados ao entorno. Quando o básico não está resolvido, é difícil que os projetos de vida ultrapassem os limites da realidade imediata", explica Santana.

Segundo ela, transporte, educação e saúde são avaliados como regulares por mais de 43% dos entrevistados no recorte nacional. "Há oferta desses serviços, mas sem qualidade. E qualidade em serviços básicos significa dignidade."

Em relação às finanças, 41% dos respondentes gostariam de ter uma vida financeira mais organizada, o que inclui limpar o nome (37%) e evitar novas dívidas (7%). O desejo por uma casa melhor lidera as metas ligadas à moradia e núcleo familiar (31%), seguido por saúde de qualidade (22%).

A expectativa de ascensão social também se projeta na próxima geração: 12% apontam como meta a entrada dos filhos na universidade. Além disso, 13% dos entrevistados enxergam a educação como caminho para ascensão social.

Dos entrevistados, 25% trabalham com carteira assinada, enquanto 34% atuam na informalidade. Seis em cada dez não têm renda fixa.

O levantamento indica que 40% consideram fundamentais, para a ascensão social, políticas de inclusão no mercado de trabalho para pessoas negras e ações afirmativas na educação, como as cotas raciais.

Para entender como moradores de favelas se percebem racialmente, o questionário incluiu categorias como pardo claro, preto claro, pardo escuro e preto retinto —classificações que não existem oficialmente, mas que, segundo Santana, ajudam a revelar aspectos estruturais e históricos da identidade racial no país.

Oito a cada dez entrevistados (82%) se declararam negros, entre pretos e pardos, sendo 37% pardos claros. "Eu me questiono se essas pessoas são, de fato, pardas claras ou se, por não serem retintas, acabam se autodeclarando assim."

Para ela, essa percepção impacta no mercado de trabalho. "Pessoas de pele mais clara acabam tendo uma 'passabilidade' social melhor, o que implica em mais oportunidades e até essa negação sobre quem se é de fato."

Ao pesquisar sonhos relacionados à segurança pública, a pesquisa mapeou que o direito de ir e vir com tranquilidade é o principal anseio para este ano (47%). Na sequência, 29% afirmaram que a expectativa é por menos violência, enquanto 17% mencionam o desejo por um policiamento mais respeitoso.

No recorte nacional, 66% dos entrevistados apontam a violência contra a mulher e o feminicídio como os principais desafios enfrentados nas periferias, seguidos por emprego e renda (43%).

Quando questionados sobre as políticas públicas mais urgentes, 65% indicam ações voltadas ao mercado de trabalho, 44% defendem campanhas educativas contra o machismo e 43% citam a necessidade de delegacias e serviços de atendimento 24 horas.

No recorte nacional, 36% afirmam não confiar em nenhuma instituição. No Rio de Janeiro, esse índice sobe para 47%. Esse sentimento é recorrente em territórios submetidos a um contexto de violência constante

Cleo Santana

Presidente do Data Favela e diretora da Escola de Negócios da Favela

Apesar das adversidades nos territórios vulnerabilizados, cinco em cada dez entrevistados acreditam plenamente que alcançarão seus sonhos, diz a pesquisa.

"Existe uma potência enorme nessas pessoas, que seguem se reinventando e sonhando, mesmo em meio a serviços precários. Reconhecer essa força não significa ignorar que há melhorias estruturais a serem feitas", conclui Santana.

 
 
 

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