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Tomar o poder

  • Clipping Vitae
  • 28 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A esquerda nunca se descuidou da doutrinação. Aplicou Gramsci com persistência. Começou na universidade e no meio artístico, o que há 90 anos o Partido Comunista tentou pelas armas, sem sucesso

Ganhar eleição ou tomar o poder? A resposta de José Dirceu, numa entrevista ao espanhol El País, em setembro de 2018, às vésperas da eleição que levou Bolsonaro à Presidência, faz a gente pensar, sete anos depois. “Dentro do país é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição.” Como o tempo é o senhor da razão, hoje fica menos difícil decifrar o que parecia frase de esfinge. Lula foi descondenado, virou ficha limpa e virou presidente pela terceira vez, no quinto mandato do PT. O PT, enfim, tomou o poder?  A esquerda nunca se descuidou da doutrinação. Aplicou Gramsci com persistência. Começou na universidade e no meio artístico, o que há 90 anos o Partido Comunista tentou pelas armas, sem sucesso. Agora a esquerda sabe que mais seguro para a tomada do poder é tomar as mentes. A via universitária e artística rendeu. Espalhou-se pelo Ministério Público e infiltrou-se no Judiciário; da classe artística e das faculdades, foi para mídia, num domínio massivo — e isso foi essencial para as escolhas das pautas, não necessariamente geradas por fatos. Como a Teologia da Libertação, infiltrou-se na Igreja há muitas décadas. 

 

Como na Intentona de novembro de 1935, os proletários são minoria. Há 90 anos, a massa era de militares; hoje a massa está mais ampla e se espalha com seus objetivos e doutrinas abertamente, expressamente. Quando o então presidente do Supremo, ministro Barroso, defendia um novo Supremo como tribunal político, estava realizando o sonho de repetir tribunais do partido, como havia na União Soviética. E a Constituição, feita para impedir tomada de poder que não fosse por eleições, ficou secundária ante o novo poder político de uma corte sem a legitimidade do voto, mas com poder acima da Constituição e dos princípios do devido processo legal, de descondenar um e condenar outro, dependendo da cor ideológica.

 

Os movimentos precisaram do silêncio da mídia, que abandonou sua razão de existir: a crítica, a fiscalização, a defesa da lei; a OAB fez o mesmo, ao esquecer sua vocação. A garantia dos poderes constitucionais, a defesa da lei e da ordem, como está na Constituição sobre as forças armadas, ficou camuflada. Os pagadores de impostos continuaram pagando cada vez mais impostos, enquanto o governo gasta cada vez mais e a elite do Estado anula mais um preceito constitucional: o limite de vantagens. Mais de 53 mil pessoas da nomenklatura brasileira recebem acima do teto máximo previsto na esquecida Constituição.

 

A rede social desmascara o Mágico de Oz, um fraco com megafone; tira o poder do Irmão mais Velho, o Big Brother de Orwell.

 

A tomada de poder exige debilitar a força abstrata e moral da Constituição, porque ela é o documento que limita o poder do Estado e garante aos indivíduos direitos fundamentais. Foram desrespeitados na pandemia, porque a mídia criou a síndrome das covas abertas, a esperar os que não se paralisassem de pânico. Como se precisasse de mais “covas”, vieram as prisões do 8 de janeiro, para que não ousassem levar ao pé-da-letra o único parágrafo do primeiro artigo da Constituição, que estabelece o regime democrático dizendo que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente.

 

Somos mais de 210 milhões. Em junho, no julgamento do marco civil da internet, a ministra Cármen Lúcia afirmou que é preciso “impedir que 213 milhões de pequenos tiranos soberanos dominem os espaços digitais no Brasil”. A ironia revela muito. Foi a internet que ampliou a voz da fonte do poder. Qualquer pessoa que tinha sua voz limitada a alguns metros de alcance, agora pode alcançar o planeta inteiro. Um brasileiro do Chuí pode ser ouvido ou lido nos confins de Roraima. A ágora digital se tornou o lugar dos debates, dos gritos, das mentiras e verdades, da crítica e do elogio, dos engodos e das denúncias. A voz do povo. A voz do soberano.

Os tiranos se assustam e reagem. Antes podiam dominar meia dúzia de canais de informação. Agora ainda podem comprá-los, convertê-los em agências de propaganda, mas a rede social desmascara o Mágico de Oz, um fraco com megafone; tira o poder do Irmão mais Velho, o Big Brother de Orwell. “Viva la muerte” — gritou o general franquista Milán Astray quando invadia a Universidade de Salamanca para prender seu reitor Miguel de Unamuno. Hoje se repete em desespero o grito de “Viva a ignorância”, porque os ignorantes são a massa de manobra dos votos para a conquista formal, via voto, na tomada do poder. Ignorância de milhões e fanatismo de milhares explicam a concordância com a desordem, a ausência de valores, a destruição vocacionada, a sede de poder pelas vantagens fisiológicas.

 

Por isso se compram votos usando benesses com o dinheiro dos pagadores de impostos. A lei eleitoral proíbe, mas o que é a lei ordinária ante uma Constituição desrespeitada em suas cláusulas mais pétreas, diamantinas? O governo gasta cada vez mais com propaganda. Se, em vez de propaganda, aplicasse em bons serviços públicos, a propaganda seria espontânea e verdadeira. Assim como está, é enganosa. Talvez agora mais representantes do povo e dos Estados estejam caindo na real, de que não se reelegerão se não agirem, pois nas redes sociais os eleitores vão se informar e trocar opiniões sobre como agiram seus representantes. A correção da rota de desastre do Brasil começa em cada eleitor.

 
 
 

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